sexta-feira, 28 de outubro de 2016

"E olhas, então, essas tuas mãos vazias (...)"

Constantemente admirava a inteligência das pessoas estupidamente burras e observava a sua própria burrice - de estimação - diante das "inteligentemente" estúpidas. Lúcida, nenhuma das três coisas era capaz sequer de aborrecê-la, nem em compasso, nem sozinhas consigo não se fazia necessário o politicamente correto, talvez quem sabe o polidamente sagaz. Sempre soube que para cada coisa em si havia uma porção de coisas outras, assim era com as palavras e os átomos. Orbitando substantivos e perdendo/ganhando adjetivos.  Alguém já disse que uma palavra era como solidão; duas, confusão e três, podiam ser a solução. "Ou não" - Como teimava seu professor e quase ancestral. Palavras e coisas não perdem elétrons, mas podem tornar-se positivas/negativas ideias. E nesses e outros alguns momentos chegava a pensar que a vida tinha ou continha em si alguma beleza estonteante - era a justa e efêmera palavra - algo assim tal como a arte de um curioso Salvador Dalí, um desconexo Picasso. Por que as palavras dóceis estavam sempre com tanta pressa? Por que não podiam ficar? Pousar mais que um instante? Por que quando beija-flores teimavam a fugir e quando assombrosos corvos a lhe rodear? Era sempre o tempo a consumir e a coruja a lhe esgueirar.


"Girl before a mirror" - Garota frente ao espellho - Pablo Picasso

Algo enfim tão bonito e refinado. Ela parada ali sem que aquilo lhe dissesse nada. 

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