segunda-feira, 3 de julho de 2017

Memórias de fatos inventados

Hoje alguém me falou de você e a minha primeira lembrança confusa foi de nós na cozinha catando feijões pretos. Naquela época os feijões ainda chamavam-se assim, agora, eles são afrodescendentes ou algo similar. É bom falar "naquela época" é das poucas coisas que a idade convém. Ouvi dizer que o mundo mudou bastante desde então, mas aposto com você que o mundo ignora nossas mudanças risíveis. "O mundo é o mesmo" acompanhando nossas grandiosas e infanto-juvenis descobertas: gravidade, forma, translação etc. Atmosferas e universos particulares orbitando muros, sistema insolar. E você e eu.  As mulheres da minha família sempre foram únicas: práticas e singulares. Quando pequena minha mãe não costumava nos pegar no colo "nem se cair, nem se chorar". E se por um lado isso nos fez mais fortes também mais frágeis.  Minha avó amava seus netos, todos os netos, mas não havia o tempo para tolices que há agora. Então, eu tinha você emprestada todas as tardes desde miúda pra me fazer carinho no rosto e bolo de laranja.  Pra contar histórias e falar da vida. Por isso eu me esforçei pra lembrar de qualquer coisa sua, um conselho, alguma frase ou trecho de conversa. Mas a memória é surda e tudo que eu me lembro é da sensação de doçura que era ter você por perto. A ironia é que hoje me falam tanto que essa é uma das características mais minhas. Eu só posso creditar ao que herdei de você.


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