domingo, 22 de outubro de 2017

Vinicius, o grande poetinha

O Haver

Resta, acima de tudo, essa capacidade de ternura
Essa intimidade perfeita com o silêncio
Resta essa voz íntima pedindo perdão por tudo:
— Perdoai! — eles não têm culpa de ter nascido...

Resta esse antigo respeito pela noite, esse falar baixo
Essa mão que tateia antes de ter, esse medo
De ferir tocando, essa forte mão de homem
Cheia de mansidão para com tudo quanto existe. 

Resta essa imobilidade, essa economia de gestos
Essa inércia cada vez maior diante do Infinito
Essa gagueira infantil de quem quer balbuciar o inexprimível
Essa irredutível recusa à poesia não vivida.

Resta essa comunhão com os sons, esse sentimento
Da matéria em repouso, essa angústia de simultaneidade
Do tempo, essa lenta decomposição poética
Em busca de uma só vida, uma só morte, um só Vinicius.

Resta esse coração queimando como um círio
Numa catedral em ruínas, essa tristeza 
Diante do cotidiano, ou essa súbita alegria
Ao ouvir na madrugada passos que se perdem sem memória...

Resta essa vontade de chorar diante da beleza
Essa cólera cega em face da injustiça e do mal-entendido
Essa imensa piedade de si mesmo, essa imensa 
Piedade de sua inútil poesia e sua força inútil.

Resta esse sentimento da infância subitamente desentranhado
De pequenos absurdos, essa tola capacidade
De rir à toa, esse ridículo desejo de ser útil
E essa coragem de comprometer-se sem necessidade.

Resta essa distração, essa disponibilidade, essa vagueza
De quem sabe que tudo já foi como será no vir-a-ser
E ao mesmo tempo esse desejo de servir, essa 
Contemporaneidade com o amanhã dos que não têm ontem nem hoje.

Resta essa faculdade incoercível de sonhar
E transfigurar a realidade, dentro dessa incapacidade 
De aceitá-la tal como é, e essa visão 
Ampla dos acontecimentos, e essa impressionante

E desnecessária presciência, e essa memória anterior
De mundos inexistentes, e esse heroísmo
Estático, e essa pequenina luz indecifrável
A que às vezes os poetas dão o nome de esperança.

Resta essa obstinação em não fugir do labirinto
Na busca desesperada de alguma porta quem sabe inexistente
E essa coragem indizível diante do Grande Medo
E ao mesmo tempo esse terrível medo de renascer dentro da treva.

Resta esse desejo de sentir-se igual a todos
De refletir-se em olhares sem curiosidade e sem história
Resta essa pobreza intrínseca, esse orgulho, essa vaidade
De não querer ser príncipe senão do próprio reino.

Resta essa fidelidade à mulher e ao seu tormento
Esse abandono sem remissão à sua voragem insaciável
Resta esse eterno morrer na cruz de seus braços
E esse eterno ressuscitar para ser recrucificado.

Resta esse diálogo cotidiano com a morte, esse fascínio 
Pelo momento a vir, quando, emocionada
Ela virá me abrir a porta como uma velha amante
Sem saber que é a minha mais nova namorada



Vinicius sempre detestou a alcunha de "poetinha" , o grande poeta que não foi, o desdém dos seus fracassos. Quando em verdade foi maior que a própria poesia, o diminutivo pejorativo era pra que de alguma forma fosse contido num conceito, numa palavra, em si. Perguntado pelo Chico certa vez  sobre como gostaria de reencarnar numa próxima viagem, Vinicius foi categórico, não fazia questão, mas se voltasse queria ser exatamente igual, apenas com o pau um  pouquinho maior. 

4 comentários:

  1. Imagino que a alcunha “Poetinha” fosse decorrente de sua talvez baixa estatura, sei lá. Mas era um grande, um imenso poeta (gosto mais dele que do Drummond). Quanto ao comprimento, imagino que nem fosse tanto problema assim para um cara que se casou nove vezes. Provavelmente, valeria para ele a expressão “chiquitito pero cumplidor”.

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    1. Reza lenda, inclusive contada numa entrevista do Pasquim com o Aguinaldo Timóteo, que esse apelido de poetinha era algo provocativo porque dizia-se que o Vinicius podia fazer músicas melhores, mas não fazia. Aquela história do cara com uma puta expectativa e potencial, mas que não passa disso. Eu discordo em absoluto, Vinicius era uma carta fantástico: inteligente pra caralho, com um domínio da língua e da poesia sem igual, fora que o cara talvez tenha sido o último romântico de verdade. Ter se casado nove vezes é a prova patente disso, ninguém se casa tudo isso de vezes sem manter consigo uma certa esperança, uma forte paixão pelo próprio sentimentalismo. Também gosto pacaralho dele,já viu o documentário homônimo? Aqui mesmo no blog tem o link.

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  2. Você está certíssima! Há uma frase genial que diz que o segundo casamento é o triunfo da esperança sobre a experiência. Cínica e cruel, mas muito verdadeira. Nesse caso, o "Vininha" era o verdadeiro "cavaleiro da esperança" (aliás, ele e o Chico Anísio).

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    1. Porra nunca tinha ouvido essa, é sensacional. Há quem diga que a inteligência se contrapõe a esperança. Então, quer coisa mais poeticamente sem sentido que isso. Brilhante, esse é o famoso "kitsh".

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